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Como um pai, senti-me; com temor em deixar-te ir-se para longe e nunca mais voltar.
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Fui dormir naquela noite tão pensativo, tão alucinado, tão silencioso, que pensei ter-me perdido naquela imagem que eu vi: tu, sentada, com as pernas juntas, um pouco recolhida, e teu rosto e teus olhos, mirando o solo em que pisavas, e teus cabelos deslizando até os joelhos.
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Estavas tu, levemente inclinada para frente; a coluna envergada semelhante aos tristes, e teu corpo, magro, como uma diva – ali parado; e isso, minha linda, iluminava-me, enchia-me de luz, e eu mesmo tomei-me luz naquele momento, irradiando para o mundo a possibilidade de uma esperança.
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Portanto, por ti, apaixonei-me.
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Pelo teu andar exótico inclinando o corpo para frente enquanto tua bolsa saracoteava em tuas pernas, dando a impressão de que corrias mais do que podia.
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O jeito hostil com que miravas os desconhecidos, e aquele olhar, aquele vago olhar, como uma lua perdida diante de um mar sem direção – provocavam em mim grande comoção.
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Eras tão jovem naquela época, e eu, tão rebelde; eras como uma flor delicada, e eu, um facão sem compaixão.
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Teus cabelos eram longos; teu corpo sedentário dava a impressão de que não movias sequer um braço; teu semblante sempre sério, tuas mãos delicadas, tudo isso me abismavam.
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E por dias passei a te olhar como um hobby; teu abismo em duelo contra a minha alma: quis-me ser como um beija-flor para pousar-te em teus lábios todos os dias.
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Quando ias embora, que dor no peito: corria a ver-te até onde os meus olhos eram capazes de enxergar – eu anotava tua direção, desenhava o teu caminho e imaginava a tua casa.
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Foi assim que tudo começou.
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Como um pai, senti-me; com temor em deixar-te ir-se para longe e nunca mais voltar.
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[Henrique de Shivas]
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Há 11 anos
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