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Não há um único dia que eu não me venha a sentir-me enojado de mim mesmo, por viver em meio a tanta sujeira e tanta gentalha.
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O que as pessoas buscam – o seu cheiro peculiar; a voz que emana de suas bocas – algo tão terrível quanto repugnante: deixam-me de todo abismado.
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Seus sonhos são produto de uma visão de mundo pequena; suas vontades: meros impulsos de um instinto-corrompido, e se por acaso criam algo de belo e glorioso, discordo, pois não criam.
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Por mais que eu pense que também sou humano, algo me leva a intuir que não sou de todo carne e osso, que não sou dotado de suas mesmas capacidades e faculdades, ou se, ao contrário, as possuo verdadeiramente e genuinamente – as tenho, sem sombra de dúvida, em um grau superior.
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Não tenho receio em dar testemunhos de minhas próprias qualidades e predicados: aqui o compromisso é em ser sincero e, sobretudo, imperativo ser como um bocejo-irresistível.
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O que me cheira mal em toda essa história – vou dizer-lhes – é o fato de que eu não me sinto nenhum pouco a vontade em meio aos outros, embora eu finja cordialidade e, cortesia plenamente.
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Aliás, basta-me pensar que a vida é efêmera para me irritar com isso: as pessoas se preocupam, sobremodo, com detalhes que não vale à pena, e, além disso, obrigam aos outros a ter de compartilhar dessas pífias emoções, como se elas fossem de todo importantes para suas – para minha! –, para nossa, vida.
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Lamento consideravelmente as crianças que eu vejo todos os dias passarem pela rua, indo às escolas: elas também serão como eles – dignas de nojo, dignas de escarro.
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Elas também serão seres humanos pequenos e sujos; munidos de vontades igualmente pequenas e sonhos miseráveis. E, apesar disso, dói-me o coração ao cogitar que aquela criança – tão linda – que eu vi ontem à noite (e acariciei os seus cabelos) poderá, no dia de amanhã vindouro, ser o criminoso que me tirará a vida.
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Que a levem! Já me comprometi com a Morte a entregar-te o corpo; o que eu não quero é que a levem assim: bando de miseráveis, mas que me permitam o sabor de tirar-lhe a finco.
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É justo que eu mesmo decida o que deve ser feito a todo custo.
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É justo que não se esconda o meu ponto de vista sob o meu silêncio aterrador: decepcionado estou por viver em meio a tanta porcaria.
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Alguns, talvez, dirão que foram as frustrações da vida – os deslizes, os fracassos, as quedas – que me tornaram o que sou; que fui derrotado pelo sentimento da Amargura e da Ira; que fui lançado à lama pela Tristeza maldita ou pela Dúvida, ou que ando sem Deus ou sem um ideal para acreditar; e todos, nesse ponto, parecem ter alguma razão.
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Pois um homem que merece esse nome – e de fato, eu mereço – tem de provar todos os seus sentimentos em sua potência-máxima; nutrir-se de emoção mesmo que seja vil e impura, e buscar o Desconhecido, sobretudo, quando ele se mostra, contudo, ameaçador.
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E, eu confesso: eu ando procurando – semelhante a um leão com sede furiosa – provar todos esses sentimentos com a mais fervorosa-gana.
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Se um homem não se dedica a vida inteira a superar seus medos; se ele não procura libertar-se dos outros para ser um Líder, sem dúvida alguma, tal homem não merece esse nome.
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Se um homem não busca sempre a Luta e o Conflito; a Vitória e a Glória: ah, ele não é um homem; ele não está preparado para a paz.
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A glória que eu desejo não é a mesma que os homens procuram, caso contrário, eu seria como eles.
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A vitória, em verdade, é ter todos os dias a certeza que venci a mim mesmo em um duelo-implacável, quando ajo conforme o que sinto e penso, mesmo, às vezes, sendo tão egoísta comigo e com os outros.
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Essa é a glória da minha alma. Uma alma que não sobrevive à Morte: ela também tem seu tempo finito e o seu caixão de pedra: eu não a quero imortal nem eterna.
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A glória é ver a cada dia um novo sol despontar-se brilhante e radioso; descobrir-se distinto dos outros e não ter de compartilhar com eles a mesma Idéia, pois isso, para mim, sempre foi uma tremenda-farsa: agir pelo impulso da igualdade, pelo desejo da igualdade, pelo êxtase do motim.
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O que as pessoas buscam se aglomerando em estádios, em concertos-musicais, em festivais de arte imbecil, em igrejas e afins, o que é senão a segurança de que pertencem a uma classe; a segurança de não se sentirem excluídos? Ao contrário, buscam em deus – em times de futebol, em formações acadêmicas, em títulos e denominações – algo que os unifiquem.
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Eu sou médico! Eu sou cristão! Eu sou ateu! Eu sou flamenguista. Dizem, orgulhosos. Eles são tudo, é vero, menos o que são de verdade.
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Eles são poetas, não há duvida alguma; são filósofos; malabaristas; são pára-quedistas; aventureiros; são, em uma única palavra – revolucionários. Menos eles mesmos.
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Em toda minha vida nunca vi um homem, orgulhoso, dizer: eu sou o que sou. E é verdade, isso é impossível, é impraticável: eles – os homens – não sabem o que são, portanto.
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E como não sabem, com efeito, não confiam em si mesmos: vão procurar a liberdade nos braços dos outros; vão procurá-la na Bíblia, no livro-sagrado e santo; no Direito e na Constituição Federal; no ideal de Che Guevara ou de Stálin, em suas profissões e títulos...
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E às vezes, eu devo confessar, quando eu acordo – “me sinto pensando” que eu também sou como eles: que eu sou um deles.
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Talvez, seja esse, o motivo do meu nojo.
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Talvez seja esse o motivo da minha derrota: descobrir em mim o outro que eu detesto, enojando em mim o que eu não sou.
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[Henrique de Shivas]